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. Virgínia Schall O gigantismo das nossas metrópoles reflete uma tendência humana de se agregar. O homem, segundo parece, sempre se agregou a outros homens. Há provas de que o homem primitivo reunia-se em cavernas e caçava em pequenos grupos. Há muito, filósofos, pesquisadores, religiosos etc, dedicam-se a investigar porque os homens se agregam, buscando compreender e descrever as vantagens das sociedades e porque os homens as formam. Embora seja consenso que o homem se organiza em sociedade em busca de proveito, conforto, utilidade e proteção, nem todos concordam sobre as suas virtudes, afirmando que a sociedade está doente e que é um berço de violência e sofrimento. A verdade é que o homem busca afiliar-se a outros e embora diariamente as relações nas cidades estejam permeadas por hostilidade, agressividade, competição, egoísmo, também há lugar para o apoio, a solidariedade, a troca de afetos etc. Observando o caminho evolutivo da nossa sociedade, embora tenhamos nos desenvolvido aceleradamente em relação às tecnologias que nos permitem comunicar com os nossos semelhantes em escala global, esta mesma tecnologia facilita o relacionamento à distância. Em lugar de encontros pessoais, multiplicam-se os encontros virtuais. Hoje, mais do que nunca, o homem pode viver isolado num apartamento, solicitando via internet e telefone os alimentos e outros produtos para satisfazer suas necessidades. Cada vez mais pessoas tem optado por viverem sozinhas, revelando uma dificuldade de relacionamento. Este quadro social está quotidianamente estampado na grande imprensa e como exemplo, pode-se citar uma reportagem sobre a situação da Alemanha, onde "velhos conceitos como solidariedade social ou senso comum perderam seu apelo num ambiente em que o que vale é o indivíduo e a realização imediata de seus desejos e ambições, sobretudo de consumo".(Veja, 1994, 43: 66). O que se relata da Alemanha é uma tendência à dissolução de clubes, o desinteresse por responsabilidades coletivas, atestada, por exemplo, pela ausência de candidatos a prefeitos de cinco municípios de um único estado (Brandemburgo). Esta tendência foi definida pelo sociológo Ulrich Beck, de Munique como" a dança em torno do próprio ego". As expressões dos próprios teóricos locais são: "sociedade do cotovelo", "sociedade de nichos", criando-se entre quatro paredes um mundo à parte, em defesa da auto-afirmação, a autonomia individual, o conforto e lazer. Segundo as estatísticas daquele país, desde 1950, dobrou o número de lares de uma só pessoa; de cada três casamentos, um termina em divórcio; filhos são encarados como investimento sem retorno, numa visão egoísta e econômica da maternidade. Embora trabalhem menos horas do que grande parte do mundo e a indústria que mais cresce seja a do turismo, também cresce o número de desempregados, que chegou à taxa de 8,34% (Veja, 1994, 43: 67) e atualmente é ainda maior . Tais situações, indicam que precisamos refletir sobre a orientação tecnológica da nossa sociedade e investir no aperfeiçoamento de nossa capacidade humana de amar e relacionar com os nossos semelhantes. Nesse sentido, devemos parar e pensar um pouco sobre o modo como estamos nos relacionando, não apenas com a nossa família e entes queridos, mas com as demais pessoas que cruzam diariamente o nosso caminho. São os colegas de trabalho, as pessoas que nos servem nos restaurantes e bares, que nos vendem coisas no comércio, que são nossos mensageiros e mesmo aqueles com quem cruzamos esporadicamente no trânsito ou na rua. Diariamente as cidades têm sido palco de encontros desastrosos entre seres humanos, observando-se desde brigas e insultos verbais até a violência física, que pode inclusive levar à perda da vida. Os motivos são diversos, mas há sempre evidência de pressões financeiras, estresse por perdas ( de emprego, de pessoas queridas), sentimentos mesquinhos como a inveja e o ciúme, cansaço etc. As reações agressivas são sempre fruto de momentos repentinos, impensados, resposta súbita a alterações internas provocadas por fortes estímulos externos. Não é fácil desenvolver um comportamento de parar e refletir antes de agir. A maioria das pessoas é impulsiva, reage prontamente a qualquer insulto ou pressão, defendendo-se e revidando a agressão. E o resultado é sempre desastroso. Além disso, a tendência ao isolamento fortalece a falta de tolerância para com os outros, havendo preferência por se afastar do que investir no aperfeiçoamento das relações. Por vezes, vamos levando a vida sem nela pensar. Mas, se alguém nos alerta para outras possibilidades, podemos abrir brechas para mudarmos e encontrarmos novos modos mais satisfatórios de ser e de se relacionar. Assim é que há todo um movimento internacional em prol do desenvolvimento da tolerância entre os homens, estimulando a compreensão e o respeito às diferenças, sugerindo formas de relacionar onde haja lugar para gentilezas e solidariedade. Podemos participar deste movimento, procurando em nosso dia a dia, desenvolver a capacidade de saber retardar uma reação agressiva e cultivar relações de entendimento e respeito. Não existe um manual que nos guie no processo de nos tornarmos menos agressivos e mais tolerantes. Mas, é preciso estarmos abertos a refletir sobre as nossas atitudes e comportamentos diários. É importante nos perguntarmos: Como tenho tratado as pessoas no meu dia? Como tenho sido tratado? Estou satisfeito com os meus relacionamentos? Ou estou freqüentemente zangado, raivoso e disposto a brigar? Uma outra alternativa é procurar conhecer melhor aquilo que nos incomoda. O conhecimento pode ser uma forma de alcançar maior compreensão e superar os impulsos negativos, os preconceitos, as disputas. Um outro ponto é decidir cultivar relações mais amistosas, com o tempo, é possível perceber como a vida fica melhor e as coisas fluem mais facilmente. É possível decidir prestar mais atenção nas pessoas, interessar-se por elas, anotar na agenda datas de aniversários, desenvolver a prática de ser atencioso com os demais. Estar atento para cooperar e solicitar cooperação. Aproveitar situações adversas para refletir sobre elas. Por exemplo, uma briga no trânsito é uma ocasião de refletir sobre a maneira de lidar com as pessoas, com o conflito, com a raiva, a violência, a disputa, o insulto ou a sensação de estar sendo passado para trás. Se o seu carro estragar numa estrada deserta e você se vir isolado, é uma oportunidade de meditar sobre o modo como enfrenta a solidão, o tédio, a incapacidade de controlar as circunstâncias e a importância da presença de uma outra pessoa que possa oferecer ajuda. Embora não existam técnicas para que nos tornemos gentis, é preciso pensar no quanto é importante que tenhamos companheiros que possam nos prestar assistência, compartilhar conosco das coisas boas e dos momentos difíceis, assim como nos podemos oferecer apoio e solidariedade. Se há todo um movimento pessoal e individual no sentido de desenvolver melhores relações entre as pessoas, também a cidade pode se organizar de forma a valorizar o contato positivo e o lado mais afetivo da vida. Assim, é importante valorizar o embelezamento das ruas, cuidar das áreas verdes, parques, jardins, educar para a limpeza e o tratamento carinhoso com a cidade. Ver na cidade a continuação da casa e evitar jogar coisas nas ruas, solicitar serviços para coisas estragadas ou quebradas, exigir da prefeitura a instalação de lixeiras e outros benefícios. Enfim, tratar a cidade como um lugar querido, onde você transita e vive grande parte da vida. O importante é estar comprometido com a qualidade da vida não apenas individual mas coletiva e assim estaremos ajudando a preparar os novos caminhos para um mundo melhor. |
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