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. Virgínia Schall Face ao nosso mais recente e escandaloso problema - a falta de energia, a ameaça do "apagão", a palavra de ordem é mesmo indignação e a reação deve ser de protesto, sobretudo nas urnas e nas lições políticas que devemos passar a nossas crianças e jovens, as quais têm demonstrado disposição para economizar, revelando-se verdadeiros vigilantes do uso racionado da luz e equipamentos elétricos em suas casas. Para além das atitudes de economia doméstica, importantes em sua formação, elas precisam entender a lógica do desgoverno, da falta crônica de planejamento, para crescerem agindo como cidadãs, na luta por um país melhor. E por um planeta a ser preservado e recuperado, compreendendo-se imersos na somatória de ações de desperdícios e destruições poluidoras que conduzem ao efeito estufa, dentre outros problemas. Assim, em paralelo às lições e atos políticos que o momento clama, é preciso refletir sobre o papel de cada um de nós. Falo por mim, que, nascida no seio de uma família de imigrantes europeus, ainda que alguns tenham chegado há muitas gerações atrás, cresci aprendendo lições de economia e respeito pela natureza. Uma família que veio para cá com o objetivo de cultivar a terra, de fazer dela uma nova pátria e não para explorá-la como muitos que povoam a nossa história de espoliações vergonhosas. Uma família que aqui semeou o amor pela nova nação, que semeou fazendas onde não havia lugar para as queimadas, onde se cultivou às escondidas o açúcar e o café para sobrevivência, na era de Getúlio, quando começavam as destruições e proibições de lavouras para regular preços e mercados. É, os mandos e desmandos são antigos e as medidas de emergência por desgoverno uma prática repetida. Lições da infância ecoam por toda uma vida e me lembro bem da minha vó materna, em seu cotidiano regrado, no seu respeito a cada produto cultivado, na beleza de sua horta e quintal, de onde subiam para a mesa os mais tenros legumes e deliciosas frutas. Jamais esquecerei quando ela ensinava uma jovem empregada na cozinha a catar o arroz. Pedia que os grãos com casca fossem separados para plantio, nunca jogados fora, afirmando que de um único grão poderiam nascer milhões de outros. Pois esse, embora um exemplo dentre muitos que teria por relatar, ficou em mim como uma imagem de respeito e sabedoria, de quem sabe o valor da vida e da terra, de quem preserva para as gerações futuras. É no cotidiano que vamos construindo o nosso quadro de referência, os nossos valores. É preciso que possamos nos afirmar como indivíduos, que possamos desenvolver a nossa singularidade, seres únicos que somos, de modo a adquirir maior compreensão das nossas próprias disposições afetivas, tendências e limites, e a construir uma atitude reflexiva e responsável diante às decisões ao longo da vida Da mesma forma, seja em família, na escola ou na rua, há uma atitude coletiva que se faz imperativa, o que chamo de "responsabilidade socio-ecológica", uma atitude de consideração crítica e consciente quanto aos próprios deveres e direitos, aos dos demais, bem como em relação à natureza. Como sugere o filósofo Guattari, precisamos desenvolver uma prática inovadora e efetiva de experimentação em nível micro-social, que promova um investimento afetivo e processos de singularização, através dos quais, os indivíduos, "a um só tempo solidários e cada vez mais diferentes, contribuam para a re-singularização das escolas, das prefeituras, do urbanismo etc." O "apagão" torna-se assim, um terreno fértil para uma educação política, no sentido do desenvolvimento singular e coletivo, requerendo de cada um a sua voz, seja solo e em coro. Ampliar a compreensão e incentivar a força de uma população esclarecida e unida. Expressar e agir para que o nosso futuro não seja "roubado". Para quando nos juntarmos ao "esqueleto das noites estreladas" (F. Pessoa), continuemos a gravitar na lembrança dos nossos descendentes a girar num planeta azul e justo.
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